O TEMPO DE OSWALDO CRUZ
No Brasil
Oswaldo Gonçalves Cruz — conhecido simplesmente como Oswaldo Cruz — nasceu em São Paulo, em São Luís de Piratininga, onde seu pai, médico e de origem fluminense, fora clinicar. A convivência com o pai, certamente, haveria de contribuir para sua opção profissional.
Formou-se também em medicina, no Rio de Janeiro, em cuja faculdade colou grau em 24 de dezembro de 1892. Já na tese de conclusão do curso, revelava a preocupação com os problemas de saúde pública — Da Veiculação Microbiana pelas Águas.
O Brasil vive época de intensa atividade política. A propaganda republicana, a queda do Império, a proclamação da República. A crise econômica.
Oswaldo Cruz colocou o anel de médico no dedo em plena crise política da queda do presidente Deodoro da Fonseca e da implantação da primeira ditadura republicana, sob o comando do marechal de ferro, Floriano Peixoto. A preocupação maior do jovem médico não era, porém, com a crise política, era com o agravamento dos problemas da saúde pública do povo brasileiro.
■ Na Europa
Buscando horizontes mais amplos, em 1896 segue para a Europa, objetivando mais profundos conhecimentos no campo da microbiologia. Pouco tempo antes, na França, Louis Pasteur demonstrara que os micro-organismos são os agentes transmissores das doenças contagiosas e propagadores das infecções nas operações cirúrgicas, conseguindo descobrir duas das bactérias mais difundidas, o estafilococo e o estreptococo. Criara um método de esterilização (pasteurização) e concebera o princípio das vacinas como terapêutica preventiva, e criara inclusive uma vacina contra a raiva.
Oswaldo Cruz, em 1896, foi para Paris, onde fez longo estágio no Serviço de Vias Urinárias do Professo Félix Guyon, no Laboratório de Toxicologia e no Instituto Pasteur, então dirigido por Émile Roux (que haveria de recomendar depois o seu nome ao governo), regressando ao Brasil em 1899.
OSWALDO CRUZ É INDICADO PELO INSTITUTO PASTEUR
■ Criação do Instituto Soroterápico
Quando regressou de Paris, irrompeu, em Santos, uma epidemia de peste bubônica. Oswaldo Cruz foi lá observar a epidemia e escreveu um relatório sobre o assunto. E como a epidemia ameaçava estender-se ao Rio de Janeiro, o governo Campos Sales criou, com sede na Fazenda Manguinhos, um Instituto Soroterápico, destinado ao preparo de soro e vacinas antipestosas, cuja direção foi confiada ao Barão de Pedro Afonso, o qual enviou correspondência ao diretor do Instituto Pasteur, em Paris, Émile Roux, solicitando que indicasse o nome de um renomado bacteriologista para dirigir a sua parte técnica. Sem hesitar, o diretor do Instituto Pasteur indicou o nome de Oswaldo Cruz.
■ Na Direção do Instituto
Esperava-se que o diretor do Instituto Pasteur indicasse um médico de renome da França. Foi uma surpresa quando Émile Roux indicou um médico brasileiro, de uma cidade do interior paulista, com a recomendação de se tratar de um seu brilhante discípulo.
Oswaldo Cruz passou, assim, a dirigir o Instituto de Manguinhos, até 1902, quando o presidente Rodrigues Alves foi buscá-lo para sanear o Rio de Janeiro.
Ele respondeu ao convite: - Dêem-me liberdade de ação e eu exterminarei a febre amarela em três anos!
Antes, porém, tivera de enfrentar a peste. Os trabalhos preliminares do Instituto começaram a 25 de maio de 1900. Na primeira distribuição de tarefas, coube a Oswaldo Cruz o setor do preparo do soro, e a Ismael da Rocha e ao veterinário francês Carré, a parte técnica.
Em 12 de dezembro de 1907, o Instituto Soroterápico passou a denominar-se Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos. E em março do ano seguinte Instituto Oswaldo Cruz, instituição que ganhou renome não só no Brasil como em todo o mundo.
■ O SANEAMENTO DO RIO DE JANEIRO
Diretor da Saúde Pública: Erradicação da Febre Amarela no Rio de Janeiro.
No dia 26 de março de 1903, Oswaldo Cruz assumiu o cargo de Diretor Geral da Saúde Pública com a tarefa de erradicar a febre amarela no Rio de Janeiro. Com pulso forte, dirigiu uma campanha contra a febre amarela, tendo de enfrentar mil dificuldades, sobretudo a incompreensão, a má vontade e a resistência da própria população e da imprensa. Mas ele não esmoreceu nem recuou e em 1907 já podia proclamar que, no Rio de Janeiro, não havia mais febre amarela em caráter epidêmico. A par da luta contra a febre amarela, ele extinguiu a epidemia de peste bubônica e de varíola.
■ A Guerra contra a Vacina
A 31 de outubro de 1904, por iniciativa de Oswaldo Cruz, o Congresso aprovou a lei que tornava obrigatória a vacina contra a varíola. O povo reagiu a essa obrigatoriedade e a imprensa começou a instigar a revolta popular. Oswaldo Cruz era atacado e até ridicularizado pelos jornais e revistas.
A revista CARETA chegou a fazer este achincalhe:
‘‘Esta Higiene!... Esta Higiene!... A princípio lidara com ratos, agora lida com mosquitos... E não se espantem se depois aparecerem outros anicetos na dança, a minhoca, o kanguru, a batata inglesa, o espermacete, o caxinguelê, o tico-tico, a lacraia e outros mencionados no novo método’’.
O povo fez barricadas nas ruas, houve quebra-quebra de bondes e até a Escola Militar da Praia Vermelha aliou-se ao povo e seus alunos saíram armados em rebelião, num levante que obrigou o governo a bombardear a Escola!
Era tal a incompreensão que uma mulher gritava:
‘‘Não hei de deixar o Governo pegar o braço de minha filha para maculá-la!‘‘...
■ Até Ruy Barbosa
Até Ruy Barbosa, a grande inteligência do país, paladino do direito, da justiça e da liberdade, chegou a pronunciar estas palavras no Senado:
‘‘A lei da vacina obrigatória é uma lei morta (...). Assim como o direito veda ao poder humano invadir-me a consciência, assim lhe veda transpor-nos a epiderme (...). Logo, não tem nome, na categoria dos crimes do poder a temeridade, a violência, a tirania, a que ele se aventura, expondo-se, voluntariamente, obstinadamente, a me envenenar, com a introdução, no meu sangue, de um vírus, em cujas influências existem os mais fundados receios de que seja condutor da moléstia, ou da morte‘‘!...
Ó tempora! Ó mores!...
Nada disso, entretanto, impediu que Oswaldo Cruz levasse adiante sua luta até a vitória final.
■ Reconhecimento Internacional
Em 1907 Oswaldo Cruz compareceu ao XIV Congresso Internacional de Higiene e Demografia em Berlim, fazendo uma exposição dos seus trabalhos à frente do Instituto Manguinhos e da Saúde Pública, tendo sido conferido, por isso, o primeiro prêmio ao Brasil, entre os 123 expositores internacionais presentes!
■ Saneamento na Amazônia
Em julho de 1910, Oswaldo Cruz estudou as condições sanitárias, na Amazônia, da região de Porto Velho do Madeira, onde estava sendo construída a estrada de ferro Madeira-Mamoré, e, mais tarde, elaborou um plano de saneamento do Vale do Amazonas e saneou a cidade de Belém.
Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (1913) e eleito prefeito de Petrópolis (1916), onde elaborou um plano de urbanização.
Faleceu em 11 de fevereiro de 1917, aos 45 anos de idade, reconhecido como um dos grandes benfeitores da saúde pública do povo brasileiro.
■ OSWALDO CRUZ E O BRASIL DE HOJE
A Saúde como Direito de Todos
Quem tanto lutou pela saúde de todos ficaria feliz por ver o Brasil, hoje, inscrever na sua Carta Magna que a saúde é um direito de todo um direito de cidadania e um dever do Estado, e adotar uma política nacional de saúde pública que tem por base ações integrada de saúde envolvendo todas as instituições públicas e privadas ligadas à saúde. Ficaria feliz de ver o Brasil implantando um modelo de Sistema Único de Saúde.
Quem tanto lutou para realizar as primeiras campanhas de vacinação em massa no Brasil, encontrando tanta incompreensão e tanta reação de autoridades e povo, ficaria feliz de ver, hoje, o meu bairro, a minha cidade, o meu Estado - ou qualquer bairro, qualquer cidade, qualquer Estado brasileiro, receber os benefícios de campanhas nacionais de vacinação contra a grife, o sarampo, a coqueluche, a difteria, o tétano, a rubéola, a hepatite, a febre amarela, a dengue, o pólio, a tuberculose, a doença de Chagas, e se orgulharia ainda de ver o Brasil projetar-se na liderança da assistência e tratamento de pessoas portadoras do vírus HIV. Tudo isso com a compreensão e o apoio de todos.
Ele que foi o precursor dessas lutas e conquistas que continua hoje, e continuará para sempre no pedestal da memória e da gratidão do Brasil.